No intuito de retomar a discussão sobre as cotas sociais na Universidade Pública, o blog da UES disponibiliza aos seus leitores um artigo do professor e ativista político Maurício Costa, extraído do site do coletivo Romper o Dia!, que aborda a necessidade da política de reservas de vagas nas instituições públicas de ensino superior, particularmente na USP.
O debate das cotas possui especial importância no momento histórico que vivemos em Santarém, onde há uma nova Universidade na fase de desenvolvimento inicial. Não obstante a reserva de 50 vagas para candidatos indígenas no primeiro processo seletivo da UFOPA, esta instituição ainda carece de ações afirmativas mais ousadas, que possibilitem o acesso dos jovens pobres da nossa região ao 'mundo' acadêmico. Democratizar o ensino superior é muito mais do que construir prédios: é, sobretudo, dar oportunidades reais às camadas marginalizadas da sociedade. Eis um dos grandes desafios da UFOPA.
COTAS SOCIAIS:DO QUE A USP TEM MEDO?
Por Maurício Costa*
Em 2009 a Universidade de São Paulo completa 75 anos. Em meio às “comemorações”, a realidade bate às portas da USP e a grita pela reserva de vagas a estudantes de escola pública ou simplesmente “Cotas Sociais” começa a reverberar dentro e fora de seus muros. Não por acaso: apesar das crescentes dificuldades em nossa sociedade injusta, desigual e em crise, a política de acesso à universidade pública e ao importante conhecimento produzido nela mantém a visão elitista e caquética das origens uspianas.
Todos sabemos que a demanda pelo diploma universitário cresce a cada ano entre os jovens mais pobres como exigência de um mercado de trabalho restritivo, com poucas oportunidades. Contudo, não é na universidade pública que essa demanda encontra respostas. De acordo com reportagem recente de um portal de grande circulação da Internet, de 2001 a 2009 aumentou em 36,4% a proporção de ingressantes na USP com renda superior a R$ 5 mil ao passo em que entre os que vivem em famílias que ganham menos de R$ 1,5 mil, a taxa caiu 34%. No vestibular 2009 a proporção de calouros entre os mais ricos chegou a 40,4% do total, enquanto 12,2% estavam entre os mais pobres.
Esses dados só revelam a lição que todo aluno do ensino médio da rede pública estadual é obrigado a aprender desde cedo: a USP não é feita para eles. O caminho passa a ser então o de buscar o ingresso nas universidades-empresa que se espalharam como uma nuvem de gafanhotos pelo país, ávidas para abocanhar esse importante filão do mercado. Proliferam-se no mais das vezes como verdadeiras fábricas de diploma onde a regra é a educação-mercadoria, o aluno-mercadoria e o lucro em detrimento da livre produção de conhecimento assentada no tripé ensino-pesquisa-extensão. Ocupando o lugar das públicas entre as maiores em números de alunos, essas instituições gozam de farta isenção de impostos e seus donos – chamados de “tubarões do ensino”- passam a figurar no rol dos empresários mais ricos do país.

terça-feira, fevereiro 22, 2011
Ib Tapajós