sexta-feira, 28 de junho de 2013

Felipe Bandeira Ib Tapajós*

As grandes manifestações de junho no Brasil mostraram a indignação popular com o esgotamento da velha política e suas instituições, como o Congresso Nacional e os vários governos. Vivemos tempos extraordinários no nosso país, comparáveis ao “Fora Collor” e à luta pelas “Diretas Já”. O ápice desse novo processo até agora foi o dia 20 de junho, em que 1,5 milhão de brasileiros saíram às ruas, de norte a sul do país. Santarém é parte desse novo período. Em poucos dias ocorrem mudanças profundas na consciência da população da nossa cidade, que experimentou as maiores mobilizações da sua história.

20-J: 15 mil indignados nas ruas de Santarém!

Já no dia 18 de junho podia-se perceber que a situação estava mudando. Sob os efeitos dos grandes protestos de São Paulo e do Rio de Janeiro no dia anterior, realizamos uma reunião na UFOPA/Rondon, para organizar a nossa passeata do dia 20. O que era para ser uma reunião singela, organizativa, se tornou uma assembleia muito expressiva, com discussões acaloradas, na qual ficaram claros o ânimo e vontade de lutar das 200 pessoas presentes. Isso se expressou na mobilização para o ato público: as panfletagens em universidades, escolas, cursinhos, cursos técnicos e espaços públicos não foram feitas apenas pelas já conhecidas lideranças estudantis. Foi uma mobilização ampla, difusa, cada um fazendo a sua divulgação, nas ruas, nas redes sociais.

O resultado veio no dia 20 de junho! Nosso 20-J entrou para a História como a maior manifestação de rua que Santarém já viu. Fomos 15 mil pessoas. Nosso grito de rebeldia nunca foi tão intenso e tão plural! As causas eram várias. O que nos unia era a luta por uma cidade mais justa e democrática. Concentrados na Praça São Sebastião, marchamos até o prédio da Prefeitura. Os donos do poder tremeram. Convocado, o prefeito Alexandre Von (PSDB) não teve coragem de dar as caras na Prefeitura. Mesmo assim a pauta foi entregue. Nosso recado foi dado, e em grande estilo!
A força dos 15 mil nas ruas fez Alexandre Von reunir com uma comissão de mais de 20 pessoas no dia 24, entre diretores da UES, lideranças estudantis, movimentos sociais e representantes da OAB. Centramos fogo especialmente em dois temas: o transporte coletivo e a área em que a Buriti iria construir seu loteamento “Cidade Jardim”. Mas não deixamos de pautar outros temas importantes, como educação, saúde e saneamento básico.

As vitórias da juventude vêm das ruas.

O resultado da reunião mostrou que a força do povo nas ruas é imbatível. Arrancamos importantes compromissos do prefeito, firmados perante a imprensa e a OAB. Em primeiro lugar: o não aumento da tarifa de ônibus no município, que permanecerá R$ 1,90, mesmo com a decisão do Conselho Municipal de Transportes que aprovou reajuste para R$ 2,20. Derrotamos o aumento! E fomos além: montamos uma comissão de 5 advogados (3 indicados pela sociedade e 2 pela prefeitura) para elaborar uma Emenda à Lei Orgânica de Santarém instituindo o PASSE ESTUDANTIL, correspondente a 1/3 do valor integral da tarifa. O projeto será enviado pelo prefeito à Câmara de Vereadores no mês de julho.
Como se sabe, o congelamento da meia-passagem em R$ 0,65 (que hoje significa 1/3 da tarifa) foi uma conquista histórica dos estudantes santarenos alcançada em 2008. Porém, foi instituído através de decreto da ex-prefeita Maria do Carmo, em contradição com o que prevê a Lei Orgânica do Município (“tarifa reduzida à metade”). Agora o benefício será garantido em lei. E mais: abrangerá também os estudantes de cursos técnicos, até então excluídos do direito ao passe estudantil.

Sobre o “caso Buriti”, empresa que desmatou 200 hectares em área próxima ao lago do Juá, na Rodovia Fernando Guilhon, conseguimos dois acordos importantes: a) segundo Von, os governos estadual e municipal atuarão no sentido de responsabilizar a Buriti pelo dano ambiental; b) o poder público viabilizará a desapropriação da área, dando a ela uma utilidade pública e social. Sobre os demais temas postos à mesa (saúde, educação e demais serviços públicos), ficou acordado que a Prefeitura convocará uma série de Audiências Públicas no segundo semestre de 2013 para debater as políticas municipais com a sociedade. A começar no mês de agosto, com 3 audiências, com os seguintes temas: a) saneamento básico; b) Terminal Hidroviário de Cargas e Passageiros; c) energia elétrica e iluminação pública.

É claro que precisamos ficar vigilantes para que todos esses compromissos sejam cumpridos. A única coisa em que podemos ter 100% de confiança é nas nossas próprias forças. Sem mobilização e pressão popular, fica muito fácil para os donos do poder virar as costas para os anseios populares. É preciso seguir lutando!

A luta segue. Novas conquistas virão!

Longe de neutralizara voz dos indignados santarenos, a reunião com o prefeito só fez aumentar nosso ânimo e vontade de lutar. No dia 25 de junho fomos de novo às ruas num protesto de 4 mil pessoas. Um ato menor que o primeiro, é verdade. Mas um ato importante porque mostrou que boa parte da juventude santarena tem fôlego para seguir mobilizada na defesa dos seus direitos. Mais uma vez os gritos de indignação foram muito plurais: desde a luta contra as hidrelétricas do Governo Dilma nos rios Tapajós e Xingu até o repúdio ao Deputado racista e homofóbico Marco Feliciano.

O clima de rebeldia que contaminou a cidade fez com que a Câmara de Vereadores aprovasse, na quarta-feira, dia 26, um projeto de lei que altera a composição do Conselho Municipal de Transportes (CMT). Esse conselho, cuja composição era antidemocrática e marcada pela prevalência dos interesses do governo e dos empresários, foi o fórum que legitimou os aumentos de passagem nos anos de 2006, 2008 e 2011. A sociedade civil estava sub-representada. A nova composição, aprovada na quarta, mudou esse cenário: agora teremos um conselho mais democrático e representativo. Os estudantes terão duas cadeiras no CMT. Teremos mais espaço para fazer o contraponto aos interesses dos donos das empresas.

Todas essas conquistas, alcançadas em poucos dias, são uma prova viva de que só a luta muda a vida! A organização, mobilização e ação direta da juventude, dos trabalhadores e movimentos sociais são o melhor caminho para aqueles que, como nós, desejam produzir mudanças profundas na nossa sociedade. Precisamos seguir lutando, pois o povo santareno possui vários problemas graves que ainda estão longe de ser resolvidos. Os direitos sociais estabelecidos no art. 6º da Constituição (saúde, educação, moradia, etc.) estão longe da necessária aplicabilidade.

As audiências públicas que ocorrerão a partir de agosto serão um importante momento para que a sociedade civil se mobilize para reivindicar melhorias e arrancar vitórias concretas. Já aprendemos o caminho: a luta, as ruas, a pressão popular. Não nos cabe esperar pela boa vontade dos governos. É tempo de ir à luta coletivamente! Esse é o maior aprendizado que podemos extrair das jornadas de junho. Para além das conquistas materiais, o maior importante foi o avanço na consciência do povo. Por causa disso, Santarém e o Brasil nunca mais serão os mesmos!

Felipe Bandeira é coordenador geral da UES. Ib Tapajós é membro da direção nacional do Juntos!

Leia também: 
- 20-J: 15 mil indignados nas ruas de Santarém - http://juntos.org.br/2013/06/20-j-15-mil-indignados-nas-ruas-de-santarem/
- Informe: encaminhamentos da reunião com o prefeito Alexandre Von - https://docs.google.com/file/d/0B06FLRhuNxIdQ2dmY0JqUV9hUGs/edit?pli=1

segunda-feira, 8 de abril de 2013


Nosso país está mergulhado numa estrutura patriarcal, machista, racista e homofóbica. É com base nestes princípios que se tem sustentado o desrespeito as diferenças, violação de direitos e a perpetuação da impunidade.

A eleição do pastor Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, com o apoio da base de apoio do Governo Dilma, tem se mostrado um fato emblemático, pois demonstra o perfil falido dos partidos da velha política.

Durante toda a sua trajetória política, Marco Feliciano (PSC) vem demonstrando uma postura extremamente intolerante, racista, machista e homofóbica. Em seu twiter, Feliciano afirmou que “os africanos descendem de Ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polêmica”. Em outra publicação das redes sociais afirmou que “o sentimento homoafetivo leva ao ódio, ao crime, a rejeição” e que “a AIDS é o Câncer gay”.

Tais declarações intolerantes e odiosas são incompatíveis com o exercício de qualquer função pública, ainda mais quando se trata da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, cuja função é justamente defender os direitos das pessoas e grupos sociais que Feliciano ofende.

Frente a essa situação, a sociedade brasileira tem dado uma aula de participação política endossando o movimento FORA FELICIANO. De norte a sul do país as pessoas tem ido as ruas manifestar sua indignação, exclamado FELICIANO NÃO NOS REPRESENTA, NÃO!
O movimento FORA FELICIANO não se move por revanchismo, ou pelo simples fato de Marco Feliciano ser um pastor evangélico. No Brasil todos têm direito a professar suas crenças. Nossa indignação se dirige contra o caráter conservador e preconceituoso de Feliciano, que, com suas palavras, viola inúmeros direitos fundamentais da pessoa humana.
Cerca de 500 mil pessoas assinaram uma petição online exigindo a renuncia do pastor Marco Feliciano da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. No entanto, o parlamento e a imensa maioria dos partidos têm se mostrado inertes à voz do povo. Precisamos de mais força e mobilização.
 Exigir a renuncia do pastor Marco Feliciano da CNDHM é um pequeno passo rumo a caminhada de um país sem preconceito e mais democrático. Queremos um Brasil com MENOS FELICIANOS E MAIS FELICIDADE!

sábado, 23 de março de 2013


Edital de Eleição de Delegados para o 53º Congresso da UNE
da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA).


Santarém/PA, dia 22 de março de 2013.


            A Comissão de 10 estudantes, credenciada junto à Comissão Nacional de Eleição, Credenciamento e Organização (CNECO) do 53º Congresso da UNE, de acordo com suas prerrogativas de COMISSÃO ELEITORAL determinadas pelo Regimento deste Congresso, anuncia este Edital de Eleição de Delegados para o 53º Congresso da UNE, que será realizado no calendário que segue abaixo.
            A documentação exigida para inscrição de chapa é o comprovante de matrícula do semestre vigente de cada integrante da (s) chapa (s). Em cumprimento ao art. 7º, I, é obrigatória a presença de 30% de mulheres nas chapas que disputarão a eleição, bem como na lista dos/das eleitos/eleitas. A apuração dos votos e proclamação dos resultados será realizada imediatamente após o término da votação, em local que será comunicado pela Comissão Eleitoral previamente.

Inscrição de chapas: 08/04/2013 a 10/04/2013.
Horário: 15h às 21h.
Local: UFOPA, Campus Rondon.

Período de campanha: 11/04/2013 a 16/04/2013.

Eleições: 17/04/2013. 9h às 21h.

Contato da Comissão Eleitoral: Eduardo Henrique Wanghon Maia, Email: eduw1@hotmail.com, Telefone: (93) 9193-2333; Heloise da Rocha Sousa, Email: heloisesousa@gmail.com; Telefone: (93) 9185-7144.
Local da Comissão Eleitoral: Laboratório do curso de Pedagogia, localizado no Campus Rondon da UFOPA.


Comissão Eleitoral para eleição de delegados para o 53º Conune:




Eduardo Henrique Wanghon Maia




Heloise da Rocha Sousa

sábado, 16 de março de 2013


Ib Sales Tapajós

Na última sexta-feira, dia 15, mais de 100 jovens santarenos reuniram-se na UFOPA para refletir coletivamente sobre os rumos da Venezuela e da América Latina após a morte do presidente Hugo Chávez.O evento, realizado pelo JUNTOS!, começou com a exibição do documentário “A sul da fronteira”, do cineasta americano Oliver Stone, que aborda os avanços sociais e políticos conquistados em vários países da América Latina após 1998, ano em que Chávez foi eleito para governar a Venezuela, iniciando um importante giro à esquerda na conjuntura da região.
O cine-debate do JUNTOS! contou com a presença de estudantes universitários, da UFOPA, UEPA, ULBRA, mas também de muitos estudantes secundaristas e pré-vestibulandos. Uma juventude ávida por debater e compreender a conjuntura latino-americana a partir de uma ótica diferente das manipulações grosseiras da grande mídia (Rede Globo e companhia).Nesse sentido, as discussões travadas foram muito construtivas. Além dos facilitadores do debate, Maike Vieira (professor de História) e Florêncio Vaz (doutor em antropologia da Ufopa), tiveram destaque dois militantes latino-americanos históricos: a venezuelana Anne Cauwell e o ex-guerrilheiro cubano Luís Lavandeyra.
A riqueza dos debates travados no evento do JUNTOS! e a importância do tema me levaram a escrever este artigo, quebusca compreender o significado da revolução bolivariana para a Venezuela e o conjunto da América Latina.

Cine Debate: O legado de Chávez e o futuro da América Latina  organizado pelo coletivo de juventude Juntos!
O Governo Chávez: 14 anos de luta nacionalista e anticapitalista.
Chávez venceu as eleições presidenciais venezuelanas em um contexto histórico marcado pela hegemonia do pensamento neoliberal no mundo inteiro. Com a queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim do chamado “socialismo real”, ganhou força a ideologia reacionária do “fim da história”, de Francis Fukuyama, que dizia não haver alternativa possível ao sistema capitalista.A ofensiva neoliberal impôs à América Latina uma política de progressivo desmonte do Estado, associada à privatização dos serviços públicos e à abertura das economias nacionais ao capital internacional.
Aintensa propagaçãodo “fim da história”gerou impactosaté mesmo em organizações políticas de esquerda que passaram a enxergar a reforma do capitalismo como única estratégia viável. Exemplo disso entre nós foi a adaptação ideológica do Partido dos Trabalhadores, cuja direção passou a ter como eixo a construção de um “capitalismo humanizado”, em cooperação com setores da burguesia brasileira (daí a aliança de Lula com o empresário José de Alencar, do Partido Liberal, em 2002).
A vitória de Hugo Chávez em 1998 significou um contraponto histórico a essa suposta vitória final do capitalismo. Ainda que ele, inicialmente,não colocasse na ordem do dia a necessidade de superação do sistema do capital, os rumos do processo bolivariano acabaram levandoChávez a defender o socialismo do século XXI – uma formulação política ainda embrionária, mas que recolou o tema do socialismo na pauta de debates da Humanidade.
Eleito com um programa nacionalista radical, já no início de seu governo, Chávez convoca um processo constituinte,o qual contou com ampla participação popular,gerando a Constituição da República Bolivariana da Venezuela de 1999, que foi aprovada em referendo e promoveu mudanças significativas no regime político venezuelano. A nova Constituição deu passos importantes em direção a uma democracia semidireta, com instrumentos de participação popularnos principais assuntos do país. Além das eleições diretas e periódicas para os cargos do Legislativo e Executivo, a Constituição de 1999 previu mecanismos como consultas e referendos, revogação de mandatos e iniciativas legislativas populares. Assim, percebemosque as afirmaçõesda grande mídia brasileira de que Chávez é um “ditador” não passam de má-fé.
Após a aprovação da nova Constituição, foi aprovado um conjunto de leis limitadoras da propriedade privada, com destaque para a Leis de Terras, que proibiu a existência de latifúndios superiores a 5 mil hectares, e a Lei dos Hidrocarbonetos, que instaurou medidas de maior controle estatal sobre a renda petroleira.
É claro que tais medidas foram consideradas uma heresia diante dalógica neoliberal. As elites venezuelanas não tardaram a agir.Em abril de 2002, uma conspiração das oligarquias nacionais, juntamente com um setor das Forças Armadas e com apoio explícito dos meios de comunicação privados do país, chegou a depor Chávez do poder por dois dias. O golpe contra o presidente foi aplaudido pelo governo dos EUA, cuja participação nesse episódio restou evidente. Porém,uma grande insurreição popular, um levante espontâneo das massas, reconduziu Chávez ao poder. A partir daí, a revolução bolivariana se radicaliza. O enfrentamento com a burguesia nacional e internacional toma maiores proporções.
Mesmo com a derrota do golpe de 2002, a oposição continua executando planos de desestabilização, com apoio da mídia privada. Em 2003, a burguesia organiza um locaute na PDVA (empresa petroleira) e deixa o país sem abastecimento de combustível, gerando um grande caos. Mais uma vez, a resposta veio do povo pobre, dos movimentos sociais e operários, que ocuparam a PDVSA e garantiram o seu funcionamento. Como resultado desse processo de enfrentamento, Chávez nacionalizaa PDVSA, fato que representa um grande salto qualitativo no processo bolivariano.
Com a apropriação pública dos recursos provenientes do petróleo, importantes mudanças econômicas e sociais se operam no plano nacional. Assim, em 2005, a Venezuela se transforma no segundo país latino-americano a erradicar o analfabetismo (Cuba foi o primeiro). Em parceria com o governo cubano, Chávez promove também importantes avanços na saúde pública.
Podemos dizer que o motivo central das mudanças sociais ocorridas na Venezuela na última década foi uma reorientação na destinação da renda petroleira. Antes de Chávez, a principal riqueza do país era apropriada pela elite econômica nacional associada ao capital financeiro internacional. Com a revolução bolivariana, o dinheiro do petróleo passa a se dirigir essencialmente para a satisfação das necessidades essenciais da população. Isso gera um aumento significativona capacidade aquisitiva dos trabalhadores -o salário mínimo na Venezuela corresponde atualmente a cerca de R$ 1.400,00.
Isso explica a imensa legitimidade do projeto chavista perante o povo venezuelano, que pode ser mensurada nas eleições presidenciais de 2012. Mesmo após 14 anos nopoder, com todas as crises, problemas, contradições e ataques sofridos, Chávez foi reeleito com 55% dos votos – praticamente o mesmo percentual de 1998. O Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV), fundado em 2007,conta hoje com cerca de 5 milhões de filiados, num país de 30 milhões de habitantes. Não há dúvidas de que a revolução bolivariana está profundamente enraizada na consciência das pessoas, de modo que derrotar o chavismo, mesmo após a morte de Chávez, não será uma tarefa fácil para a oposição.

O significado da revolução bolivariana para o conjunto da América Latina

As mudanças operadas pelo Governo Chávez não se esgotam no âmbito nacional. A revolução bolivariana inaugurou uma nova fase na América Latina, com a ascensão ao poder de inúmeros líderes populares, que mudaram a orientação de seus países perante o imperialismo norte-americano. Países como Equador, Bolívia, Paraguai, Honduras, Uruguai e, em certa medida, Argentina e Brasil, fizeram parte de um mesmo processo que alterou a geopolítica da região. Embora haja uma grande diferença entre os governos destes países (entre Lula/Dilma e Chávez, a diferença é enorme!), o novo bloco formadodeixou de aceitar passivamente a ideia d a América Latina como quintal dos EUA.
Além da Venezuela, essa nova postura se reflete com maior profundidade no Equador e na Bolívia, cujos governos têm um perfil claramente anti-imperialista. O Equador de Rafael Correa realizou há poucos anos uma auditoria da sua dívida pública, quereduziu em mais de 60% o montante a ser pago aos credores nacionais e internacionais. Uma medida essencial de combate à usura do capital financeiro. Foi também o Governo Correa que decidiuconceder asilo político a Julian Assange, líder do Wikileaks,que desnudou a política externa criminosa dos EUA, sofrendo por isso uma severa perseguição internacional.Na Bolívia, o presidente indígena Evo Morales tomou medidas importantes, no sentido de nacionalizar os recursos naturais do país, a exemplo de Chávez.
O avanços alcançados nesses 3 países (Venezuela, Bolívia e Equador), que são o polo mais avançado da América Latina, têm uma origem parecida:a combinação das lutas sociais com a vitória eleitoral de líderes políticos de esquerda. Não dá para explicar a ascensão de Chávez ao poder sem a rebelião popular conhecida como Caracazo (1989), nem a vitória de Evo sem a Guerra da Água em 2000. Essa articulação entre a mobilização das massas ea disputa institucional se mostrou uma estratégia apta a produzir grandes mudanças sociais, políticas e econômicas.
No entanto, a morte de Chávez joga um ponto de interrogação sobre o continente: e agora, para onde vai a América Latina? Assim como o início da revolução bolivariana inspirou vitórias populares em vários outros países vizinhos, a contrario sensu, uma derrota das forças chavistas nas eleições presidenciais marcadas para abril de 2013 pode gerar também um grave retrocesso não apenas na Venezuela, mas em toda a região. Muita coisa está em jogona disputa entre Nicolas Maduro, herdeiro político de Chávez, e Capriles, principal expressão eleitoral da oposição venezuelana.
De todo modo, a continuidade da revolução bolivariana sem o seu maior líder depende fundamentalmente da organização e mobilização popular. Depende do povo pobre que se rebelou em 1989 no Caracazo, o povo que desceu dos morros para derrotar o golpe de 2002, o povo queocupou a PDVSA e conquistou a nacionalização do petróleo, o povo que foi o principal beneficiado com os 14 anos de Governo Chávez. É esse mesmo povo que tem de continuar protagonizando sua própria História, não apenas paradar continuidadeao processo bolivariano, como também para aprofundá-lo, na direção de uma sociedade pós-capitalista.

O papel da juventude na luta anticapitalista e anti-imperialista

A morte de Chávez e as eleições venezuelanas são eventos que se situam em uma conjuntura internacional crítica, instável, mas na qual se abrem importantes caminhos. Se por um lado a crise econômica ataca os direitos da classe trabalhadora e da juventude em vários cantos do mundo, por outro ela propicia o surgimento de novos movimentos de luta e contestação aos regimes políticos controlados pelocapital financeiro e pelas grandes corporações. As revoluções árabes no norte da África e no Oriente Médio, o fortalecimento da luta do povo palestino, o movimento dos indignados na Europa, o Occupy Wall Street, as greves recentes na Argentinae as mobilizações estudantis no Chile são um conjunto diversificado de respostas dos povos contra as mazelas do sistema capitalista, que abrem espaço para a construção dealternativas políticas.
É com esse intuito, de pensar e construir alternativas, que jovens de mais de 10 países vão se reunir no final de março em Buenos Aires, no I Acampamento Internacional da Juventude Anticapitalista e Anti-imperialista. Será um espaço de interação e articulação entre ativistas que lutam em seus respectivos países por um futuro diferente para a Humanidade. Estarão presentes em Buenos Aires representantes de organizações de juventude de países da América do Sul, América Central e Europa.Merecem destaque, pela conjuntura atual, a juventude socialistado MST argentino, integrantes do Syriza, coalização anticapitalista grega que chegou perto de ganhar as últimas eleições do país, e a juventude do Marea Socialista, corrente interna do PSUV, jovens lideranças que ajudam no dia-a-dia a construir a revolução bolivariana.
Do Brasil, o JUNTOS! é a organização de juventude que estará presente no Acampamento, para somar esforços com as lutadores anticapitalistas de diversas partes do mundo. Em razão da diversidade de sujeitos políticos que irão se encontrar na Argentina, não esta dúvida de que o Acampamento é uma iniciativa de grande relevância para a construção de um novo futuro. Ele é prova de que um expressivo setor da juventude mundial está ciente do grande desafio civilizatório que temos pela frente: construir uma sociedade justa e livre da exploração e da opressão.Em outras palavras, perseguir o sonho de Chávez e de diversos outros lutadores e lutadoras: a construção do socialismo do século XXI.

Ib Sales Tapajós é graduado em Direito pela UFOPA. Foi coordenador-geral da UES. Hojefaz parte do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos! e da Executiva Municipal do PSOL em Santarém.

sábado, 2 de março de 2013


Entrevista com Maria Lúcia Fatorelli (ex-auditora fiscal da Receita Federal e presidente do Unafisco Sindical (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal)



Auditora da Receita Federal durante 29 anos, Maria Lucia Fattorelli se dedica, desde 2001, à coordenação do movimento Auditoria Cidadã da Dívida. A organização vem buscando informações sobre a dívida pública brasileira e demanda a realização de uma ampla auditoria em seus contratos.
Para Maria Lucia, existe um “sistema da dívida” no Brasil. Nesta entrevista ao Sul21, ela explica que esse sistema foi orquestrado pelo aparato financeiro internacional com a anuência de diversos governos desde a ditadura militar.
“O sistema consiste na usurpação do instrumento de endividamento público. Em vez de ser um instrumento que aporta recursos ao Estado, passou a ser um ralo para escoar esses recursos. É esse sistema que influencia o modelo econômico. Quais são as metas econômicas do governo federal? Não são metas de bem estar social. São metas de controlar a inflação e atingir o superávit primário. Se não há recurso para pagar a dívida e atingir o superávit, então o governo corta o orçamento de diversas áreas”, critica.
A auditora aposentada foi uma das seis estrangeiras escolhidas pelo presidente do Equador, Rafael Correa, para realizar uma auditoria da dívida pública do país, em 2007. Com essa atitude, o Equador reduziu em 70% o gasto com a dívida. “Foi uma lição de soberania ao mundo”, defende Maria Lucia.
Ela esteve em Porto Alegre nesta semana para participar do XXII Congresso da Federação Nacional das Entidades dos Servidores dos Tribunais de Contas do Brasil (FENASTC).
“A dívida brasileira hoje, somando a externa e a interna, está em quase R$ 3,5 trilhões e absorve quase meio orçamento por ano. Em 2011, o governo pagou R$ 708 bilhões”
Sul21 – Como surgiu o movimento?
Maria Lucia Fattorelli - O movimento existe desde 2000, quando houve o grande plebiscito popular da dívida no Brasil. Esse plebiscito foi convocado por entidades da sociedade civil, igrejas, partidos políticos, sindicatos e associações. Foi realizado em mais de 3,3 mil municípios em todo o país e colheu mais de 6 milhões de votos. Em toda a década de 90, vínhamos debatendo esse assunto. Se o Brasil é tão rico, por que temos tantos problemas sociais? Chegamos à conclusão de que a mãe das dívidas sociais era a dívida externa. Na época, a face da dívida era a externa. O plebiscito que organizamos tinha três perguntas e uma delas era: “Você concorda em continuar pagando a dívida sem a realização da auditoria prevista na Constituição?”. A Constituição de 1988, no artigo 26 das disposições transitórias, prevê a realização de uma ampla auditoria por uma comissão mista convocada pelo Congresso Nacional. Terminado o plebiscito, entregamos os resultados para o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Passaram-se meses e não aconteceu absolutamente nada, então as entidades voltaram a se reunir para discutir o que fazer. Mais de 80 entidades nacionais e alguns parlamentares propuseram a continuidade da luta iniciada com o plebiscito através de um movimento pela auditoria cidadã.
“Qual tem sido o peso da dívida na vida do cidadão?”, questiona a auditora | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – Qual o objetivo do movimento?
Maria Lucia – Não queríamos ficar apenas cobrando a auditoria da dívida. Iríamos além. Iríamos tentar levantar o que fosse possível, com base em dados e documentos públicos. É o que temos feito ao longo desses 12 anos, acessando dados sobre a dívida pública da União, dos municípios e dos estados, sempre analisando o teor dos contratos e a sua conjuntura. Buscamos fazer uma auditoria integral, que não é simplesmente uma auditoria contábil. Comparamos dados divulgados pelo Ministério da Fazenda com os dados da contabilidade nacional, com a evolução do orçamento e com o peso da dívida no orçamento. Qual tem sido o peso da dívida na vida do cidadão? Com isso, conseguimos explicar porque o Brasil, sendo um dos países mais ricos do mundo, acumula tanta injustiça, tanta miséria e não oferece os serviços públicos aos quais a sociedade tem direito. Os recursos necessários para isso estão sendo sangrados pela dívida.
Sul21 – Quem são os profissionais que trabalham nessa auditoria?
Maria Lucia - É um movimento aberto. Tem mais de 50 entidades apoiadoras. E 99,9% dos que trabalham conosco são voluntários. Contamos principalmente com o trabalho voluntário de auditores da receita federal, dos tribunais de contas e das receitas estaduais, que doam seus conhecimentos para esta luta cidadã.
Sul21 – E que tipo de informações vocês já possuem sobre a dívida?
Maria Lucia - A dívida brasileira hoje, somando a externa e a interna, está em quase R$ 3,5 trilhões e absorve quase meio orçamento por ano. Ainda assim, a dívida continua aumentando. Em 2011, o governo pagou R$ 708 bilhões. Até início de outubro de 2012, já tínhamos atingido essa cifra. Em geral, o governo divulga uma cifra muito mais baixa do que essa, como se a dívida estivesse em torno de R$ 1,8 trilhão. Isso porque ele divulga a dívida líquida. É um conceito muito pouco claro em que se deduz alguns créditos da dívida bruta. O governo utiliza na dedução, por exemplo, o volume de reservas internacionais. Mas elas representam um ingresso quase nulo ao Brasil. Não dá para fazer esse encontro de contas. As reservas não estão disponíveis, se estivessem, poderíamos simplesmente reaver esse recurso e quitar uma parte da dívida, e isso não está sendo feito. A dívida que estamos pagando é bruta, é sobre ela que incidem os juros. Temos que tomar cuidado com essas maquiagens e conceitos que não são claros.
“Já não faz mais sentido falarmos, hoje, em dívida interna e externa. Precisamos falar em dívida pública ou dívida soberana, por conta da ausência de barreiras ao capital”
Sul21 – Afinal, o que compõe essa dívida?
Maria Lucia - Nosso endividamento nasceu junto com a “independência”. Para o que o mundo financeiro reconhecesse nossa independência, herdamos uma dívida que Portugal havia contraído com a Inglaterra para brigar contra a nossa independência. O valor era 3,1 milhões de libras esterlinas – na época, muito dinheiro. Em 1931, quando Getúlio Vargas assumiu, ele questionou o fato de haver tantas cobranças sem os respectivos contratos. Ele determinou que houvesse uma auditoria. O resultado foi impressionante: apenas 40% da dívida estava documentada. Não existia controle dos pagamentos, nem das remessas ao exterior. Isso permitiu o início de uma revisão e certamente ajudou na implantação dos direitos sociais garantidos naquele período. O período atual iniciou na década de 1970, quando a dívida externa era de US$ 5 bilhões. Durante essa década, esse valor se multiplicou por dez. Era algo totalmente sem transparência, e o que se dizia era que o crescimento da dívida ocorreu para financiar o “milagre econômico”. Em 2010, durante a CPI da Dívida, pedimos os contratos referentes à década de 1970. Apenas 16% da dívida estava explicada em contratos. Há uma grande suspeita de que boa parte desses 84% restantes tenha sido recursos que vieram justamente para financiar a ditadura. Imaginávamos que a maior parte dessa dívida era com o FMI. Mas, durante a CPI, fizemos um gráfico que mostra a natureza desses valores, de 1970 até 1994. O principal credor não era o FMI, mas, sim, os bancos privados internacionais. Então essa dívida da década de 1970 é a origem. Foi ela que deu margem a toda sequência de renegociações. Em 1983, por exemplo, essas dívidas foram transferidas para o Banco Central. Foi uma ilegalidade, pois como um agente financeiro nacional, ele não poderia ser, ao mesmo tempo, devedor. Isso foi uma exigência dos bancos privados. Em 1994, a dívida se transformou em bônus. Ela deixou de ser contratual e passou a se transformar em títulos, saindo do Banco Central para ficar a cargo do Tesouro Nacional. Hoje, a natureza desses R$ 3 trilhões de dívida é em títulos, tanto a externa quanto a interna. Restam pouquíssimos contratos de dívidas diretas e bilaterais com países.
Para Maria Lucia, conceitos de dívida externa e interna precisam ser revistos | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – A dívida interna inclui contratos internacionais?
Maria Lucia - Inlcui dívida com bancos internacionais. Já não faz mais sentido falarmos, hoje, em dívida interna e externa. Precisamos rever esses conceitos. Teoricamente, a dívida externa é aquela contraída em moeda estrangeira junto a residentes no exterior. A interna é aquela contraída em moeda nacional junto a residentes no país. Hoje, o mercado financeiro está dominando tudo. Quando o Tesouro Nacional emite títulos da dívida, quem tem o privilégio de comprá-los em primeira mão são os chamados “dealers”. Uma lista obtida com o Tesouro mostra quem são esses dealers: Citibank, J. P. Morgan, Santander, Barclays, Deutsche Bank, HSBC… Esses bancos estrangeiros compram diretamente os títulos da dívida interna. Então precisamos falar em dívida pública ou dívida soberana, justamente por conta dessas negociações e, também, por conta da ausência de barreiras ao capital. Grande parte da dívida interna está na mão de estrangeiros. E a dívida externa pode ser comprada por residentes no país, porque são meros papeis.
Sul21 – Nesse contexto, qual seria a utilidade de uma auditoria na dívida?
Maria Lucia – A auditoria iria verificar não apenas os números. Queremos entender qual é a contrapartida dessa dívida e em que condições ela se originou. Não podemos fazer um discurso moralista sobre o endividamento público, vendo a dívida sempre como algo perverso. A dívida pode e deveria ser um instrumento importante para o financiamento do Estado. Os recursos necessários para garantir uma vida digna a toda a sociedade e que não conseguirem ser obtidos por meio dos tributos poderiam ser captados por meio de endividamento. Mas um endividamento transparente, discutido publicamente – porque afinal quem vai pagar é povo – e a um custo razoável, com cláusulas contratuais coerentes. O que temos encontrado nas nossas investigações são quantias que se tornam dívida de um dia para o outro, cláusulas completamente absurdas, que afrontam o aparato legal brasileiro, e operações injustificadas.
“Dizem que se você enfrenta o sistema financeiro, o mundo desaba. E isso não aconteceu no Equador, o país não ficou isolado e continua tendo acesso a crédito”
Sul21 – Como foi a experiência de participar do processo de auditoria da dívida pública do Equador?
Maria Lucia - O caso equatoriano foi uma lição de soberania ao mundo. O presidente Rafael Correa criou, por decreto, uma comissão para realizar a auditoria da divida interna e externa. Foram nomeados integrantes dos órgãos públicos, juristas, professores, representantes de movimentos sociais e um grupo de seis estrangeiros. Eu tive a honra de ser convidada. Foi um processo que durou um ano e quatro meses. Entregamos ao presidente diversos relatórios para fins de organizar o trabalho. Uma equipe cuidou da dívida interna. Outra, da externa multinacional. Outra equipe cuidou da dívida bilateral. E um grupo – do qual eu fiz parte – ficou com os contratos com bancos. Entregamos em outubro de 2008 todos os relatórios e o presidente ficou particularmente interessado nos dados da dívida com os bancos, porque era a parcela maior, onde os juros eram mais caros. Conseguimos apresentar o relatório comprovando, com documentos, as diversas ilegalidades, irregularidades e até fraudes nesse processo. O presidente submeteu esse relatório ao crivo jurídico nacional e internacional e recebeu o aval de que o documento tinha sustentação jurídica. Em março de 2009, ele apresentou uma proposta soberana: arremataria a dívida por 30% do seu valor e estipulou um prazo para os detentores interessados entregarem seus títulos. Quem não estivesse interessado que entrasse na Justiça contra o Equador. Qual foi a grande surpresa? O mundo não caiu. Dizem que se você enfrenta o sistema financeiro, o mundo desaba. E isso não aconteceu no Equador. Cerca de 95% dos detentores acataram a proposta. Os outros 5% nunca apareceram. Ninguém entrou na Justiça contra o Equador. Isso demonstra que a auditoria é uma ferramenta que permite acessar a verdadeira história do endividamento. Depois dessa atitude, o Equador obteve um alívio orçamentário de US$ 7 bilhões, o que representa muito para a sua economia. E o país não ficou isolado, continua tendo acesso a créditos.
Maria Lucia foi a única brasileira a integrar o grupo de especialistas que realizou auditoria da dívida do Equador | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – E a dívida dos estados brasileiros com a União? Parece ser uma engenharia financeira bastante semelhante à da dívida nacional. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o empréstimo feito pelo governo federal foi de R$ 11 bilhões, em 1997. De 1999 a 2010, o estado já pagou R$ 22 bilhões e ainda continua devendo R$ 38 bilhões.
Maria Lucia - Pesquisamos a gênese desse acordo e constatamos que ele é muito parecido com os acordos que o FMI fazia com o Brasil. Há, inclusive, um memorando em que o Brasil se comprometia, junto ao FMI, a fazer o refinanciamento da dívida dos seus estados, retirando deles a prerrogativa de se autofinanciarem. Essa negociação estava associada a outros dois programas. Um deles era o PROES, que “saneava” os bancos públicos estaduais para que pudessem ser privatizados. Foi um verdadeiro pacote, igual aos pacotes que o FMI preparava para a União. Esses acordos foram feitos em bases extremamente onerosas e inaceitáveis, se consideramos que União e estados são entes federados. Um cidadão de Porto Alegre vive, ao mesmo tempo, na sua cidade, no seu estado e no seu país. E é ele quem paga essa dívida. Então, veja bem, não tem sentido o cidadão pagar juros para ele mesmo. É isso que acontece com essa dívida estadual: a União cobra juros dos estados. Esses contatos fracionaram os juros nominais. Isso possibilitou uma garantia de remuneração equivalente à atualização monetária, que é medida, nessa dívida, pelo IGPDI, um índice que mede a expectativa de inflação e considera questões cambiais – o que não faz sentido numa negociação entre entes federados. Que federalismo é esse?
Sul21 – A quais conclusões é possível chegar após a análise de todos esses dados?
Maria Lucia - Podemos dizer que existe um sistema da dívida. Ele consiste na usurpação do instrumento de endividamento público. Em vez de ser um instrumento que aporta recursos ao Estado, passou a ser um ralo para escoar esses recursos. É esse sistema que influencia o modelo econômico. Quais são as metas econômicas do governo federal? Não são metas de bem estar social. São metas de controlar a inflação e atingir o superávit primário. É tudo dirigido em torno da dívida, onde o sistema financeiro absorve a maior parte dos recursos. Se não há recurso para pagar a dívida e atingir o superávit, então o governo corta o orçamento de diversas áreas.
Informações do Tesouro Nacional apontam que maioria dos detentores de títulos da dívida brasileira são bancos internacionais | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – Como a senhora vê a articulação do poder político em torno desse sistema da dívida? Não parece haver interesse dos grandes partidos e lideranças na discussão desse problema.
Maria Lucia - Já conseguimos arrancar a CPI da Dívida em 2010 na Câmara dos Deputados. É evidente que isso foi abafado pela mídia, mas conseguimos acesso a muitos documentos. Atualmente, existe uma CPI semelhante na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Mas essas investigações sofrem forte pressão do setor financeiro, que tenta abafá-las. Por isso precisamos criar uma pressão popular do outro lado. Para que isso ocorra, a sociedade precisa ter acesso à informação. Queremos criar uma mobilização consciente e derrubar a ideia de que esse tema é muito complexo, de que só especialistas muito qualificados poderiam entendê-lo. Precisamos de especialistas em órgãos públicos, mas todas as informações são perfeitamente traduzíveis para o conjunto da sociedade. São os cidadãos que estão pagando essas contas, eles precisam entender a importância desse tema.

Entrevista originalmente publicada no portal: www.sul21.com.br

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013


[Luiz Sérgio Henriques]


O exemplo não será de todo adequado, pois gira em torno de personagens da alta cultura, a saber, o romancista russo Alexander Soljenitsin e o filósofo húngaro Georg Lukács. O primeiro, como se sabe, prêmio Nobel de Literatura em 1970, foi um famoso “dissidente” no próprio país – a originária “pátria do socialismo” –, com dimensão simbólica internacional semelhante à do físico Andrei Sakharov. Cabe dizer que, como tantos outros oposicionistas do então bloco socialista do Leste europeu, figuras assim eram vistas como embaraço por boa parte da esquerda ocidental, ao se erguerem internamente contra as estruturas do socialismo realmente existente em nome da democracia e dos direitos humanos.
Georg Lukács, filósofo comunista de cepa irretocável, nunca foi um grande pensador da política: seu leninismo, mesmo em época bastante tardia, levou-o a imaginar um improvável retorno da URSS, já definitivamente enrijecida, aos tempos fervilhantes da revolução e da democracia direta. O filósofo, no entanto, teve a coragem de romper uma barreira espiritual quase intransponível, ao analisar e saudar, na década de 1960, o sopro de renovação trazido pelas narrativas de Soljenitsin, especialmente Um dia na vida de Ivan Denisovitch, Primeiro círculo ePavilhão dos cancerosos. Obras-primas da literatura e denúncias fundamentais do stalinismo.
Talvez sejam exemplos solenes demais para o caso de Yoani Sánchez, uma mulher deste nosso admirável mundo novo das redes sociais, que, tanto quanto se sabe, reporta com vivacidade, em blog, o cotidiano de Cuba, esta outra “pátria socialista”, agora em dimensão mais propriamente latino-americana. Yoani, retratando o dia a dia dos cubanos, ou de uma parte deles, por certo não escreveu nada parecido com a saga do Ivan Denisovitch num gulag soviético, mas, tal como Soljenitsin, é uma dissidente. E tantos anos depois este tipo de personagem ainda é encarado como estorvo ou mesmo como presença a ser rejeitada, no Brasil redemocratizado da Constituição de 1988 e com a presidência legalmente posta nas mãos de um partido de esquerda – de resto, fato inédito e digno de comemoração cívica.
Se Yoani, com o respeito que se deve a quem vive em condições adversas por causa das suas ideias, não é o Soljenitisin daqueles romances mencionados, seus detratores brasileiros ostentam credenciais que merecem também ser examinadas com o mesmo ou até maior rigor. Foram além de vaiar ou se manifestarem dos mais variados meios legítimos contra a presença da cubana, sem lhe ameaçar a integridade física. Fizeram algo muito diferente de, valendo-se dos recursos que a democracia a todos permite, reunirem-se em defesa da causa de Cuba – de uma determinada visão de Cuba – ou de, para dar um exemplo quase automático, protestarem contra o anacrônico bloqueio americano. Foram muito além disso tudo, e cabe examinar brevemente por que foram.
A visão de que o mundo se reparte em mocinhos e bandidos conheceu – exatamente com a consolidação do poder de Stalin, há quase 100 anos! – uma inusitada expansão para as relações interestatais. Várias gerações de comunistas, que no Ocidente e fora do poder, em geral combatiam boas causas em defesa dos subalternos, passaram a entender o mundo como o conflito irreconciliável entre um país que “encarnava” o socialismo e seus oponentes capitalistas ou imperialistas. Na falta de uma articulação democrática interna da pátria socialista, quem dissentia era literal e metaforicamente demonizado: não faltou quem chamasse Trotski, derrotado na luta interna, de “puta do fascismo” (o que, diga-se de passagem, não quer dizer que Trotski fosse garantir sorte melhor aos seus adversários, caso tivesse vencido). Bukharin, artífice de uma relação menos tensa com o imenso mundo camponês às vésperas coletivização forçada, em 1928, apareceria alguns depois, humanamente arrasado, num dos infames processos de Moscou, na época do Grande Terror. Como se sabe, seria eliminado como “inimigo do povo”. E, sem terminar o rol da intolerância, no auge do sectarismo comunista os social-democratas eram, pura e simplesmente, “social-fascistas” – piores até do que os fascistas e os nazistas.
O hábito de designar religiosamente – no mau sentido da palavra, um sentido que a aproxima do fanatismo e do espírito inquisitorial – um país como a “pátria do socialismo” não se limitou à antiga URSS. O fascínio ideológico podia se deslocar para outros altares, como aconteceu com a China do maoísmo e da revolução cultural e, em momento sucessivo, até mesmo a Albânia do camarada Enver Hodja, tida numa certa época, inclusive por corrente política no Brasil, como o “verdadeiro farol do socialismo”. Paciência, aqui já estamos naquilo que o saudoso Stanislaw Ponte Preta chamava de “o perigoso terreno da galhofa”…
Este tipo de representação do mundo, de matriz stalinista, não é inocente. Quem forma a própria cabeça e a alma neste catecismo elementar incapacita-se, necessariamente, para o exercício da análise crítica, diferenciada. No paraíso que imagina, não consegue supor a existência de pessoas e grupos políticos e sociais que divirjam, que pensem diferente, que tenham outras visões das coisas e do próprio país. No inferno que esquematiza – no caso, a matriz ianque do imperialismo –, não consegue visualizar a rica cultura política fundadora, sua própria origem revolucionária, a dinâmica social e econômica multissecular que atraiu pensadores como Gramsci, bem como a inovação “epocal” representada pelo reformismo rooseveltiano ou pela batalha dos direitos civis de Luther King.
Ao contrário de tudo isso, o mundo, tal como ensinado por Stalin, divide-se em Disneylândias opostas, uma de tipo consumista, outra de tipo ideológica. E ambas falsas e ilusórias, a fanatizar, estreitar e limitar os espíritos. E, também, a limitar o horizonte político e cultural da própria esquerda, que teria a obrigação de defender as liberdades sempre e em toda parte, muito especialmente, como queriam o liberal Voltaire e a revolucionária Rosa, a liberdade de quem pensa de modo diferente.
Yoani, depois de várias tentativas, conseguiu exercer o direito elementar de sair de Cuba e enfim, entre nós, prestar um testemunho subjetivo e, por certo, parcial, sobre as coisas, as pessoas e as instituições que vivencia e com que se defronta e confronta todos os dias. A ilha, por seu turno, não está imobilizada no tempo: tem conhecido ultimamente reformas econômicas que, pelo menos na teoria, privilegiam a iniciativa dos indivíduos e limitam a paralisia asfixiante que parece característica irremovível dos regimes extremamente centralizados e “estatólatras”.
Tudo isso é positivo, mas não basta. Além do dinamismo econômico, a transição cubana, que só os voluntariamente cegos não veem já estar em pleno curso, precisaria assentar numa sociedade civil viva, feita de uma multiplicidade de indivíduos livres e capazes de pensar por si mesmos, como a própria Yoani. E feita também, evidentemente, de um tecido associativo que a resguarde de restaurações mafiosas, tal como a que, aliás, aconteceu na antiga matriz soviética, e dê alento a uma nova esquerda capaz de se movimentar no ambiente liberado das travas do partido-Estado – ambiente que, não tenhamos dúvida, mais cedo ou mais tarde virá.
Ao falar deste tipo de questão, estamos falando também de nós, do tipo de esquerda que temos (pelo menos em parte) e das suas estruturas mentais forjadas, como o enferrujado aço stalinista, no tempo da guerra fria. A propósito, não custa nada tirar da prateleira ou xeretar nos sebos o Ivan Denisovitch e os ensaios lukacsianos que acolheram este Soljenitsin. Podem ser um bom começo de conversa.


*Júlio Câmara

Cinco anos após ter renunciado pressionado pelas mobilizações populares, Renan Calheiros volta à Presidência do Senado. Desde então, um abaixo-assinado pedindo a renúncia de Renan arrecadou mais de 1 milhão de assinaturas e diversas manifestações estão sendo organizadas para exigir o seu impeachment, já que ele é acusado pela Procuradoria-Geral da República de ter praticado três crimes: peculato, falsidade ideológica e utilização de documento falso.

Na prática, Renan Calheiros roubou dinheiro público: Gastou verba do seu gabinete e apresentou notas fiscais falsas na prestação de contas. E agora substitui José Sarney com o apoio da base do  Governo Federal, em uma votação secreta, que considera importante a aliança com Renan para a aprovação de projetos.


Passeata contra Renan Calheiros em Porto Alegre

O último fim de semana foi de mobilização e ocupação das ruas de mais de 30 cidades do Brasil com gritos de “Ôô Renan, agora eu sei: o teu lugar é na cadeia com o Sarney”.  Em Porto Alegre, com diretórios acadêmicos, DCE’s e movimentos sociais, fomos mais de 300 do Parque da Redenção até a Usina do Gasômetro denunciando Renan com palavras de ordem, músicas e panfletos muito bem recebidos pela população que não vacilou ao manifestar seu apoio.

Em São Paulo, a Avenida Paulista foi ocupada por quase 1.500 pessoas, com representações de DCE’s, Grêmios Estudantis, professores e diversos movimentos sociais, durante algumas horas.

Em Belém, no Pará, o ponto de diálogo com a população para denunciar Calheiros foi a Praça da República diante do monumento que representa o regime democrático e a liberdade. Na cidade, estamos organizando um próximo ato para o dia 10 de março, às 9h, no mesmo lugar.

Na capital do Rio de Janeiro, a caminhada foi na orla de Copacabana com gritos e cartazes exigindo a saída de Renan. Com adesão de banhistas pelo caminho, o ato foi encerrado no Leme.

Além da entrega das 1,6 milhão de assinaturas do abaixo-assinado no próprio Senado, também ocorreram manifestações populares próximas ao Senado.

A eleição de Renan  Calheiros para a Presidência do Senado é um deboche para a população brasileira. Não podemos assistir esse desrespeito pelos noticiários, precisamos ser protagonistas da nossa história. Pelo fim da corrupção nós seguiremos Juntos! nas ruas para fazer ruir os pilares da velha política!

*Júlio Câmara é do Grupo de Trabalho Estadual do Juntos! RS

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013


Foram encaminhadas propostas para resolver o atendimento de rotas de ônibus da UEPA e UFOPA.

Por Felipe Bandeira[1]

Mudam as cores do governo, mas em essência a população padece dos mesmos e velhos problemas. A questão do transporte público está caducando em Santarém e as soluções apresentadas são insuficientes. Isto porque se parte do pressuposto de que este é um gasto por demais oneroso para o município, e melhor mesmo é deixar a iniciativa privada organizar com “bem entender” a oferta do serviço. Para início de conversa, proponho repensarmos os adjetivos. Ruim continua sendo ruim.
Na última quinta-feira (21) ocorreu na SMT (Secretaria Municipal de Transporte) uma reunião onde foi discutido, sobretudo, a precariedade do serviço dos ônibus e a tarifa da passagem estudantil, congelada desde 2008 em 65 centavos.
O debate por parte do poder público girou em torno da “conciliação de classes”, alegando que os estudantes devem ter “maturidade” para entender as dificuldades empresariais frente a uma cidade sucateada em suas vias, e que seria razoável que a tarifa para os estudantes acompanhassem pelo menos o acréscimo da inflação.
Trocando em miúdos, pelo que ficou caracterizado é consenso por parte do poder público o aumento da tarifa estudantil. Enquanto UES e representante da categoria estudantil, defendi a permanência do congelamento. Não se pode livrar o Estado de suas atribuições.
O planejamento para esse setor foi sempre um grande mal entendido, nunca se pensou em resolver problemas, mas sim em empurrá-los com a barriga. Não teremos um transporte público de qualidade se não rompermos com esta lógica. Quem passa na catraca dos ônibus não pode arcar com todos os custos deste serviço.
Neste ano temos uma tremenda batalha: barrar o descongelamento da passagem estudantil! Esta é uma pauta inclusive pedagógica. E temos que nos apropriar cada vez mais deste debate.



Em relação a alguns encaminhamentos da reuião, alguns pontos devem ser esclarecidos e demonstra uma vitória para o movimento estudantil.

UEPA
A universidade Estadual do Pará é um caso emblemático em nossa cidade. Possui toda a estrutura para a oferta do serviço (parada de ônibus, sinalização, faixa de pedestre) e, no entanto, não há nenhuma rota de transporte coletivo que contemple os estudantes desta instituição.
Neste sentido, ficou encaminhado um estudo e análise do local por parte da SMT, e no máximo daqui um mês, ou seja, 21 de março, a secretaria irá efetuar, se preciso, licitação para uma nova rota de ônibus que atenda o local, ou repensar as rotas já existentes para passar em frente ao campus.

UFOPA
No caso da UFOPA, os problemas levantados foram as rotas de ônibus para o campus da Marechal Rondon - que se assemelha com o problema da UEPA (parada de ônibus, boa trafegabilidade das ruas) -  e no entanto, nenhuma linha atende a universidade.
Foi encaminhado uma revisão das rotas que já passavam por lá em anos anteriores, e no máximo em 2 semanas, ou seja, dia 7 de março, o problema estará sanado.
Sobre o campus Tapajós, a SMT irá notificar as empresas para cumprirem seus itinerários, e efetuar a fiscalização no local.     

Vamos ficar atentos com os prazos!

[1] Coordenador Geral da UES, estudante de Ciências  Econômicas – UFOPA e militante Juntos! Juventude em Luta!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Por Ronilson Santos*
Imagem meramente ilustrativa. Foto reprodução
Prezados,
Pedimos a compreensão de todos, pois neste final de semana este blog estará passando por algumas mudanças, visando melhorar o layout, deixá-lo mais fácil de navegar e integrá-lo às redes sociais. No entanto, isto não afetará a navegação, e o blog continuará no ar.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013


Está marcado para o dia 14 de março de 2013 as eleições para a nova gestão do DCE – UFOPA 2013/2014.
O Diretório Central dos Estudantes (DCE) é uma entidade fundamental para organização estudantil, e ao longo dos anos vem travando intensas lutas na defesa dos direitos destes.  
Os interessados em participar das chapas devem se inscrever das 08h do dia 18 de fevereiro, até às 20h do dia 20 de fevereiro de 2013.
Para mais informações segue abaixo o Edital de convocação e o regimento eleitoral.


Edital de Convocação


Regimento Eleitoral
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